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A atualidade do tradicionalismo (parte 2)

Nossa coluna semanal está expondo durante algumas semanas tópicos sobre o que Jarbas Lima escreveu sobre a ATUALIDADE DO TRADICIONALISMO, através de sua tese “O Sentido e o alcance social do tradicionalismo”, que está publicada junto ao site do MTG RS.

Os grandes rebanhos bovinos que se formaram à margem direita do rio Paraná, e mais tarde nos campos do Uruguai, não tardaram a espraiar-se ao natural pelo Rio Grande, junto com os índios minuanos e charruas, que se tornaram hábeis cavaleiros. No sul do Rio Grande, como explica Barbosa Lessa, antes do colonizador europeu já havia o cavalo europeu, o juntamento europeu, o boi europeu, o carneiro europeu, o cão europeu. A seguir vieram os jesuítas, o Padre Roque Gonzales, e as Missões se estabeleceram do oeste para leste. Só não chegaram até o Guaíba porque os bandeirantes paulistas interromperam a sua expansão. Quando do Tratado de Madri e da Guerra Guaranítica que se lhe seguiu, já vinha ocorrendo a ocupação portuguesa através de Laguna e da Colônia do Sacramento. Logo seriam abertos os velhos caminhos, distribuíram-se sesmarias, vieram os açorianos estabeleceram-se as charqueadas.

Processava-se assim aqui dentro, em razão das necessidades internas, a organização da sociedade num território ao qual, nem os portugueses e nem os espanhóis tiveram acesso fácil pela via marítima. Estava reservado ao território de São Pedro do Rio Grande o papel de fronteira em movimento e ali haveria de medrar uma sociedade marcada pelo enfrentamento entre dois impérios em expansão, o português e o espanhol. Mais tarde, quando chegaram os imigrantes alemães e italianos, oriundos de sociedades mais estruturadas, identificaram formas de convívio que correspondiam às necessidades e exigências da comunidade regional, a elas se integrando e emprestando-lhes matizes diferenciados.

Em termos de Antropologia Cultural, um dos aspectos mais fascinantes da história do Rio Grande está no ajustamento dos imigrantes aos valores regionais. A vitalidade da comunidade luso-gaúcha transmitiu-se de forma indelével para as colônias alemãs e italianas. Os alemães, chegados a partir de 1824, tiveram participação direta na Guerra da Cisplatina e na Revolução Farroupilha. Os italianos, que aqui assentaram suas raízes desde 1875, não ficaram imunes às lutas entre maragatos e pica-paus e tiveram participação destacada em todos os movimentos políticos econômicos do final do século passado e do século atual.

A integração do imigrante à maneira de ser do gaúcho pode ser explicada pela afinidade entre sua cultura e os valores locais. Diferentemente do resto do Brasil, que teve uma organização política e social mais ou menos outorgada, vinda de cima para baixo (não havia sequer povo e já estávamos organizados em capitanias e governos gerais), o Rio Grande teve que conquistar o território, zelar pela sua defesa e organizá-lo de dentro para fora e de baixo para cima. Semelhante era a sorte dos colonos alemães e italianos. Enquanto nos demais Estados brasileiros se processava uma colonização por dispersão, como ocorria nos cafezais de São Paulo, com uma aculturação acelerada, no Rio Grande ocorreu uma colonização por nucleação. Aí se deu o prodígio etnológico. Do fenômeno não resultaram quistos, mas integração, um processo de aculturação onde predomina o respeito pelos valores de cada cultura. Havia uma nota comum muito acentuada entre a sociedade local e a dos recém-chegados imigrantes. Ambas tinham que fazer por si, e por si encontrar a solução para os seus problemas.

O colono trouxe os conhecimentos e as técnicas relacionadas à agricultura e a indústria que os luso-gaúchos ainda não praticavam. Estes por sua vez tinham extraordinária habilidade na criação de gado e na organização das estâncias, fatores desconhecidos dos europeus. O próprio Garibaldi, herói dos Dois Mundos, em carta a Domingos José de Almeida, não cansa de gabar o extraordinário desempenho dos cavaleiros gaúchos. Dos contatos destas culturas resultou não a oposição, mas a complementaridade.

Este espírito associativo e universalista, apto a tirar partido das diferenças e reconhecendo a riqueza da diversidade, é uma das características centrais do tradicionalismo gaúcho. É este mesmo espírito que hoje alimenta a audácia do “Brasil de bombachas”.

“Sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra”.

Sobre Leandro Chaves

Leandro Chaves
Professor e Tradicionalista. Filho de Italmir Maldonado Chaves (in memoriam) e Ana Maria Castro Chaves. Exerceu diversas funções em Entidades Tradicionalistas de São Gabriel; foi Sota-Capataz e Tesoureiro da 18ª Região Tradicionalista. Atualmente integra o Departamento Social do CTG Tarumã. É o idealizador do Mennatchê, um evento tradicionalista realizado no mês de Setembro, dentro de uma Escola Pública, que tem como objetivo cultuar as tradições do RS.

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