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A atualidade do tradicionalismo (parte 3)

Nossa coluna semanal encerra nesta semana a prosa sobre tópicos que Jarbas Lima escreveu referentea ATUALIDADE DO TRADICIONALISMO, através de sua tese “O Sentido e o alcance social do tradicionalismo”, que está publicada junto ao site do MTG RS.

Nesta semana concluímos com a terceira parte desta tese, da qual podemos refletir sobre a atualidade do tradicionalismo, bem como relacionar com os dias de hoje e o modismo que está tomando conta de nosso movimento.

O príncipe de nossos escritores, o saudoso Érico Veríssimo, em seu inigualável O Tempo e o Vento, criou um personagem, o velho Fandango, que bem traduz o modo de ser do homem simples do pampa e sua percepção dos fenômenos de miscigenação cultural no Rio Grande. Mesmo criticando os alemães, Fandango demonstra por eles, na aparente hostilidade, uma secreta ternura:

“Da margem esquerda pro norte e pro mar
tem gringo demais.
Não gosto de alemão.
Falam uma língua do diabo.
Olham prá gente com um ar de pouco-caso.
Tudo neles é diferente:
as roupas, as danças, as comidas, as casas,
até o cheiro.
Quando eu vejo um homem de pele muito branca
cabelos de barba de milho e olho de bolita de vidro
até me dá nojo.
Se eu fosse governo, mandava essa alemoada embora.
Não é que eu seja mesquinho, somítico ou malevo:
Estrangeiro também é filho de Deus…”

Ao descrever os italianos, Fandango dá todas as razões para a integração das culturas gaúcha e peninsular:

“Duns anos pra esta parte, tem chegado também muito italiano.
Se empoleiraram na serra, porque a alemoada, que chegou primeiro, pegou os melhores lugares na beira dos rios.
Já andei por essas novas colônias da região serrana.
A fala deles tem música
e é doce como laranja madura
e meio parecida com a nossa.
Gostam de comer passarinho,
de fazer e beber vinho,
de cantar, de ouvir missa,
de padre e de procissão.
Vacuncés são muito moços, não pegaram a Guerra dos Farrapos.
Pois o velho Fandango teve a honra de servir com José Garibaldi,
que também era gringo,
mas gringo de senhoria.
Sabem o que foi que ele disse na sua língua atrapalhada?
Que com a nossa cavalaria era capaz de conquistar o mundo…”

O personagem de Érico situava-se no século passado. Qual não seria hoje o seu discurso, se tivesse conhecido a epopéia do “Brasil de Bombachas” e tivesse constatado que grande parte daqueles pioneiros são os descendentes dos imigrantes. Este universalismo que transcende as fronteiras artificiais do Estado (Mundo velho sem porteira), que hoje se afirma através dos fatos, demonstra a atualidade permanente da tradição gaúcha.

Quem leu o romance, ou assistiu o filme O Quatrilho, do professor Júlio Pozzenato, terá observado como as cidades da região serrana na zona de colonização tiveram o seu grande impulso no momento em que se aliou a iniciativa dos imigrantes italianos, sua agricultura e sua indústria, com os pecuaristas luso-gaúchos. A obra é rica nos diálogos dos heróis descendentes de imigrantes com os fazendeiros dos Campos de Cima da Serra. Neste particular também é visível a relação de complementaridade entre as duas culturas em fase de acomodação e ajustamento. A ênfase que, nesta comunicação, acompanha o fenômeno da imigração justifica-se pelas comemorações, no ano que passou, dos 120 anos da imigração italiana no Rio Grande do Sul.

Independentemente da análise histórica e antropológica, é importante olhar um pouco mais de perto para o próprio Movimento Tradicionalista. Vale a pena frisar alguns pontos de nossa Carta de Princípios, aprovada há 35 anos no Congresso Tradicionalista de Taquara (julho de 1961) e que se mantém extraordinariamente atual. Nela se preconiza a necessidade do cultivo da tradição “como substância basilar da nacionalidade”. Que outra coisa estão fazendo os pioneiros do “Brasil de Bombachas”?

Defende a Carta a necessidade de “pugnar pela fraternidade e maior aproximação dos povos americanos”. Pois o “Brasil de Bombachas”, que veio do Rio Grande, já estava também no Paraguai, na Argentina e no Uruguai e já lá estava muito antes de se falar em MERCOSUL. Penso que nenhum Estado brasileiro está tão preparado quanto o Rio Grande para o MERCOSUL. Neste particular avulta outra nota importante: aquela fatalidade geográfica, que nos colocava na periferia cartográfica do Brasil, agora nos traz para o centro da nova comunidade transnacional. A história demonstra que os mapas se modificam com maior facilidade do que as culturas.

No seu artigo XXIII diz a Carta: “Comemorar e respeitar as datas efemérides e vultos nacionais e particularmente o dia 20 de setembro, como data máxima do Rio Grande do Sul”. E mais adiante no artigo XXIV: “Lutar para que seja instituído, oficialmente, o Dia do Gaúcho, em paridade de condições com o Dia do Colono e outros “Dias” respeitados publicamente. No ano de 1995 pudemos comemorar, pela primeira vez, o dia 20 de setembro como feriado estadual. Foi preciso que um tradicionalista no Congresso Nacional, o modesto signatário desta comunicação, propusesse projeto de lei permitindo aos Estados a fixação de um feriado estadual na sua data máxima. Sancionada a lei pelo Presidente da República, hoje o Rio Grande pode celebrar condignamente o dia 20 de setembro.

Este mesmo Congresso Tradicionalista que realizamos todos os anos, agora em sua 41ª edição, é uma súmula do que defende nossa Carta de Princípios. O Rio Grande vive hoje momentos difíceis. Se a natureza lhe foi predominantemente dadivosa, não deixam algumas de suas manifestações de serem adversas e até hostis. A longa estiagem que destruiu nossas lavouras e a enchente catastrófica que lhe seguiu nos trouxeram este quadro de problemas, justamente no momento em que nos reunimos neste Congresso Tradicionalista de São Lourenço.

Oriento-me, então, pelo primeiro artigo de nossa Carta de Princípios: “Auxiliar o Estado na solução dos seus problemas fundamentais e na conquista do bem coletivo”. A mensagem que podemos enviar a todos os irmãos gaúchos, nesta hora difícil, é a da solidariedade. O ideal de “HUMANIDADE”, gravado nos símbolos farroupilhas, é o fundamento de todo o tradicionalismo. Ele vem acompanhado daquela certeza de que o Rio Grande, que sempre soube fazer por si, haverá de vencer. Em resumo, o Tradicionalismo Gaúcho se fundamenta na singularidade da história de um povo que se fez de dentro para fora, de baixo para cima. Temos um passado que é parte integrante de nossa identidade. Nossa memória coletiva não se compõe apenas de heróis, mas sobretudo de grupos e comunidades que souberam escolher soluções e eleger seu próprio destino. O dinamismo e o espírito de iniciativa dotaram o povo gaúcho de um pioneirismo que hoje se espraia por todo o país, e até mesmo para além de suas fronteiras, comprovando com os fatos a valia de nossa tradição. Todas as culturas que se confluíram para o Rio Grande moldaram-se numa matriz de compreensão e solidariedade. As lutas do passado, as horas de provação nos ensinaram a superar as dificuldades, dando-nos as mãos. A tudo soubemos vencer, dada sobremodo nossa imensa capacidade de amar. Tal como diz o nosso cancioneiro, é o meu Rio Grande do Sul, céu, sol, sul, terra em flor, onde tudo que se planta cresce e o que mais floresce é o amor”.

“Sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra”.

Sobre Leandro Chaves

Leandro Chaves
Professor e Tradicionalista. Filho de Italmir Maldonado Chaves (in memoriam) e Ana Maria Castro Chaves. Exerceu diversas funções em Entidades Tradicionalistas de São Gabriel; foi Sota-Capataz e Tesoureiro da 18ª Região Tradicionalista. Atualmente integra o Departamento Social do CTG Tarumã. É o idealizador do Mennatchê, um evento tradicionalista realizado no mês de Setembro, dentro de uma Escola Pública, que tem como objetivo cultuar as tradições do RS.

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