quarta-feira, 17 Janeiro 2018
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As diferentes fases do Tradicionalismo e o Movimento Moderno

Buenas!!! Pedindo licença mais uma vez para juntos prosearmos em mais uma semana. Com a permissão de nosso patrão Maior desde já lhe agradeço por mais uma vez reservar alguns minutos do seu dia-a-dia para aqui estar junto a nosso no Proseando com Ratinho Chaves.

Nesta semana vamos trazer como prosa parte da Dissertação de Celso Konflanz, que teve como tema: “A MODERNA TRADIÇÃO GAÚCHA – Um estudo sociológico sobre o Tradicionalismo Gaúcho”, Dissertação apresentada como requisito para a obtenção do grau de Mestre pelo Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, no ano de 2013.

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Celso relatou em sua dissertação o seguinte:

Vamos diferenciar – ao menos em linhas gerais – os principais períodos históricos do Tradicionalismo, até a constituição do formato atual, com intuito de definir a que período estamos nos referindo (mas também para evitar confusões conceituais sobre o fenômeno)34. Sendo assim, para efeito de delineamento temporal de 34.

Pois bem, o momento inicial do Tradicionalismo cultural no Rio Grande do Sul pode ser atribuído ao Partenon Literário de Porto Alegre fundado em 1868. Funcionando como uma espécie de intelligentsia rio-grandense, os intelectuais dessa associação produziram diversos textos sobre a temática regional, resgataram alguns ideais da revolução farroupilha, do bom campeiro, do gaúcho, exaltaram figuras importantes da história, bem como construíram considerável acervo literário. Embora seu objetivo principal não fosse à tradição especificamente, acabaram colaborando para que se estabelecesse as bases do culto ao regionalismo. Por volta de 1885 esta sociedade encerrou suas atividades.

A segunda fase do Tradicionalismo ocorreu durante a República Velha (1889 – 1930) até a década de 1940, quando a pretexto da afirmação da ideologia positivista, foram resgatados e reinterpretados a imagem do gaúcho e das tradições. Sobre essa fase, vamos destacar a criação, em 1898, da primeira agremiação objetivamente Tradicionalista, o ‘Grêmio Gaúcho’ de Porto Alegre por iniciativa do Major João Cezimbra Jacques. A entidade tinha por finalidade o culto à “tradição” por meio de festas, desfiles, palestras, entre outras(35). Se o Partenon tinha por elemento central a literatura, no Grêmio Gaúcho, o Tradicionalismo passou ocupar a posição principal. Podemos dizer então que, a partir desta instituição, o Tradicionalismo passou a ter uma noção consciente e sistematizada de culto ao passado. O Grêmio compartilhou do contexto da efervescência republicana e do positivismo no Rio Grande do Sul do final do século XIX. Foram resgatados e romantizados, nesse período, inúmeros acontecimentos históricos do Estado, especialmente sobre a Revolução Farroupilha, enaltecida como símbolo de heroísmo. Os interesses políticos dos positivistas alinhavam-se – em boa medida – com os ideais da Revolução, e por isso a necessidade de resgatá-la. Sob a ordem de Júlio de Castilhos, presidente do Estado, foi adotado, por exemplo, o pavilhão tricolor da República Farroupilha como bandeira oficial do Rio Grande do Sul. Foram criadas outras entidades similares ao Grêmio Gaúcho no interior, dentre as quais se destaca a União Gaúcha de Pelotas na qual participou João Simões Lopes Neto, um dos maiores literatos regionalistas do Rio Grande do Sul e que, com seus contos e lendas, contribuiu muito para a evolução do culto ao nativismo. Mas aos poucos os objetivos iniciais dessas entidades foram desvirtuando-se até que se tornaram clubes sociais convencionais (36).

Além da fundação do Grêmio Gaúcho, como manifestação propulsora do culto às tradições durante a República Velha e os anos que se seguiram, ainda se viu, por exemplo, o regionalismo literário emergindo com bastante força, a fundação da Sociedade Gaúcha Lomba Grande em Novo Hamburgo (37), as comemorações ao centenário da Revolução Farroupilha, entre outras iniciativas importantes à construção das tradições do Rio Grande do Sul.

Tanto a primeira como a segunda fase do Tradicionalismo estão ligadas a situações políticas e sociais bem especificas da América Latina e especialmente do Brasil, como a decadência do regime monárquico, a implantação da república, a abolição da escravatura, a modernização, etc. e muito marcadas por influências intelectuais europeias. O Partenon, por exemplo, ancora-se fortemente na construção romântica do passado, na exaltação do bucólico, do “tempo de ouro”, do lirismo e outras noções do romantismo. Já a construção do tradicionalismo no caso da república velha, tem por base a ordem, o progresso, a evolução, a apologia às figuras da história, o patriotismo, além da máxima de culto ao passado sem excluir o presente, etc. todos os elementos do positivismo da época. Evidentemente que esses períodos da história não são homogêneos em suas ideias e visões de mundo, mas ao contrário, apresentam inúmeras divergências políticas e teóricas entre os intelectuais. Por exemplo, durante o governo positivista do Partido Republicano Rio-Grandense que governou o estado durante toda a República Velha, literatos como Alcides Maya e Ramiro Barcellos, não compartilhavam da norma coletiva que era apregoada pelo regime positivista, e fizeram severa oposição. Contudo, a preponderância de algumas ideias indica a influência maior da cada fase, em que o apelo à república, ao progresso, a modernidade foram dominantes.

Estas duas primeiras fases ajudaram a amadurecer a ideia de culto as tradições e fomentaram a criação de um conjunto de símbolos e representações do imaginário sobre Mas somente na terceira fase que foram estabelecidas as características modernas do Tradicionalismo, aquelas que lhe condicionariam tanto a uma representatividade ou significação muito maior frente à população, bem como lhe disporiam uma configuração capaz de adentrar a pós-modernidade e se estender até os dias atuais com notável vigor. Esta fase iniciou logo após a Segunda Guerra Mundial, mas especificamente no ano de 1947, com as primeiras atividades Tradicionalistas da Escola Júlio de Castilhos de Porto Alegre, por iniciativa, primeiro, de Paixão Côrtes e alguns colegas, e depois, Barbosa Lessa, Glaucus Saraiva e outros jovens do interior resididos na capital que se juntaram ao grupo. Estes, encorajados pelo sucesso das atividades do departamento escolar em torno do gauchismo, no ano de 1948 fundaram o primeiro Centro de Tradições Gaúchas, o “35 CTG” (38). Apenas esta fase iniciada em meados do século XX está ligada ao fenômeno da globalização, da cultura de massas, e mesmo da pós-modernidade que não tardaria a iniciar. E sendo assim esse é o fenômeno que nos interessa.

No desenvolvimento do culto ao regionalismo percebe-se que desde a fundação do Partenon, na segunda metade do século XIX, já rondava um anseio por resgatar as tradições do estado. A partir da fundação da República esse sentimento só cresceu. Observa-se que foram inúmeras as iniciativas, que de algum modo, fizeram referência ao passado do Rio Grande do Sul. Inaugurou-se, como dissemos o Grêmio Gaúcho e suas entidades congêneres, manifestou-se com bastante força o regionalismo literário, foi fundado em Novo Hamburgo a Sociedade Gaúcha Lomba-Grande, ocorreram às comemorações ao centenário da Semana Farroupilha, etc. Podemos acrescentar a isso, que, no momento da criação do movimento moderno, por exemplo, o jovem Lessa, que bem no início não conhecia Paixão Côrtes, relata já ter ideias parecidas, e outros grupos na capital, também manifestavam pensamentos semelhantes. Por fim, depois da fundação do primeiro Centro de Tradição, os CTG’s rapidamente se proliferaram pelo Rio Grande do Sul, confirmando que o desejo por resgatar as tradições, se colocava quase como um espírito de época.

Deste modo, a fundação do tradicionalismo dos anos de 1940 não se trata de uma situação isolada, mas está incluso em um cenário que já vinha germinando há décadas. Apesar disso, este novo movimento não pode ser confundido com os outros momentos de culto a tradição, pois foi somente com o formato assumido pela fase moderna que finalmente o tradicionalismo pode tornar-se um movimento grande, abrangente, que pode expandir e se proliferar, e não ficar somente restrito a grupos letrados, como vinha acontecendo desde o início.

34 – Essa classificação temporal não deve ser entendida como taxativa, pois a história é sempre um processo e não convive com demarcações rígidas, então, este é um recurso para classificar algumas tendências que foram predominantes (mas não exclusivas) em cada fase do desenvolvimento do culto ao regionalismo, e que podem ajudar a compreender o tradicionalismo atual.

35 – OLIVEN, Ruben George. “Em Busca do Tempo Perdido: o Movimento Tradicionalista gaúcho.” Revista Brasileira de Ciências Sociais, 6(15), 1991, p. 40-52.

36 – A União Gaúcha de Pelotas retomou suas atividades em meados do século XX já no formato que seria observado no Tradicionalismo moderno, ou seja, se organizou em um “CTG” e assim permanece até hoje

37 – Fundado em 1938, era uma sociedade semelhante tanto ao Grêmio Gaúcho quanto aos futuros CTG’s.

38 – Nome alusivo ao ano de início da Revolução Farroupilha, 1835.

Desde já lhe agradeço por mais este convívio que tivemos aqui no mundotradicionalista.com.br, onde mais uma vez pedimos ao nosso Patrão Maior que derrame todas suas bênçãos sobre nós, para que na próxima semana, podemos novamente retornar e aqui prosearmos sobre nosso tradicionalismo gaúcho.

“Sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra”.

Sobre Leandro Chaves

Leandro Chaves
Professor e Tradicionalista. Filho de Italmir Maldonado Chaves (in memoriam) e Ana Maria Castro Chaves. Exerceu diversas funções em Entidades Tradicionalistas de São Gabriel; foi Sota-Capataz e Tesoureiro da 18ª Região Tradicionalista. Atualmente integra o Departamento Social do CTG Tarumã. É o idealizador do Mennatchê, um evento tradicionalista realizado no mês de Setembro, dentro de uma Escola Pública, que tem como objetivo cultuar as tradições do RS.

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