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Conflito de Gerações no Movimento Tradicionalista (parte 2)

Buenas Gaúchos e Gaúchas deste pago sulino. Estamos mais uma vez lhe pedindo licença, com a proteção de nosso Senhor, para juntos prosearmos sobre a nossa tradição gaúcha.

Na semana passada, nessa e na próxima estamos trazendo uma matéria que achamos se suma importância, da qual merece nossa reflexão sobre o nosso Movimento Tradicionalista, que foi publicada em ZH no dia 30 de agosto de 2014, da qual a repórter Kamila Almeida fez uma belíssima reportagem sobre o tema: Jovens tradicionalistas questionam regras para manterviva a cultura gaúcha “Uma geração que se debate para encontrar seu lugar em CTGs está colocando o tradicionalismo diante de uma encruzilhada”.

MEIO-TERMO PARA SER MAIS ATRATIVO

Maria Angélica Saraiva, 22 anos, diretora do Departamento Jovem do MTG em 2014, preocupa-se com a diminuição de concorrentes em concursos de prendas e peões a cada ano. Ela acredita que falte incentivo e oportunidades para eles dentro dos CTGs:

– Para atrair mais jovens, deveria haver um meio-termo: o MTG dar o braço a torcer e diminuir as normas e os jovens se esforçarem para entender por que elas existem.

Filho do presidente do MTG, na época, Tomás Savaris, 30 anos, é músico e trabalha na harmonia da dança na invernada do CTG Campo dos Bugres, de Caxias do Sul. Foi ele quem levou o pai para o tradicionalismo, em 1991, quando ingressou no movimento e começou a participar dos grupos de dança. Tomás diz que a rigidez das regras ocorre mais nas competições.

– Dentro do CTG é bem tranquilo. É só se vestir da forma tradicional. Bombacha, camisa, bota e guaiaca são o suficiente. Exagero mesmo é nos concursos. Mas são os próprios participantes que pedem que seja assim. O concurso não é a coisa mais saudável do meio – diz Tomás.

Percebendo o afastamento dos jovens dos galpões, o CTG 35 – primeiro do Estado e o mais tradicional – montou um plano de ação para reverter o cenário. O primeiro passo foi flexibilizar as regras e desistir de concorrer no Enart, desde 2012, devido ao alto custo para os integrantes.

Ter uma invernada competitiva pode custar até R$ 10 mil. O valor é dividido entre os integrantes, cerca de R$ 1,7 mil para cada, em média.

Um dos responsáveis por atrair mais jovens ao CTG é Márcio Albrecht, 30 anos:

– Antigamente tu fazias um concurso de prenda e peão e não precisava correr atrás de gente, enchia. Hoje, ocorre de os CTGs terem de nomear peão e prenda, quase que obrigar, porque não tem interessado.

Os primeiros sinais do resgate vieram este ano. Depois de uma década, houve três concorrentes nas categorias de peão e prenda no concurso interno. Tornar o jovem tão cultural quanto artístico é o desafio da entidade, diz a capataz cultural, Gleicimary Borges da Silva:

– Se pegar um integrante das invernadas, desses que vão para o Enart e têm pilchas lindas, e perguntar a história do Rio Grande, receio que eles não consigam responder.

MUDANÇA EM BUSCA DE CONFORTO NO CTG

Henrique Arruda Rodrigues, 22 anos, é o Peão Farroupilha do 35. Ele se dedica ao tradicionalismo desde 2005 e critica o fato de não poder ficar mais confortável no galpão:

– Tu trabalha a semana toda, se sente cansado. Gostava de ir ao baile, sentar no canto e ficar assistindo, não vinha para dançar. Não queria vir de bota, queria colocar uma alpargata, que é mais confortável, mas não podia entrar. Aqui dentro hoje pode, mas a maioria dos CTGs não deixa.

Para ajudar no conforto, permitem que ensaiem de tênis e sem os trajes completos. Mas apesar do discurso liberal, Gleicimary enxerga um decote mais ousado e avisa:

– Vou lá falar com a menina. Ela está com uma blusa muito aberta. Não pode mostrar tanto o colo assim.

E é a indumentária que está entre os temas mais polêmicos do CTG. Para designar o que pode e o que não pode, existe um manual de 15 páginas só para a pilcha. Mesmo mais flexível, o 35 mantém proibições. Saia curta, decote, barriga de fora, nem pensar.

Nos bailes, em vez de constranger o convidado, pedindo para se retirar, existe uma arara à disposição com vestidos para emprestar.

– Isto faz parte da nova mentalidade do CTG 35, de amenizar as regras para que não cheguem a ferir tão diretamente o jovem ao ponto de se sentir constrangido e com vontade de se afastar do movimento – explica AdilenyMeneghetti, 1ª prenda.

Carolina Pizzato é uma das que foram atraídas pela nova era do 35. Tem 27 anos e entrou em fevereiro para o grupo de dança, atividade da qual estava distante desde a adolescência:

– É um hábito que toma muito tempo. Tem muitas regras e eu não acho elas ruins, só que tu tens de estar disposta. Da primeira vez, estava com um piercing na boca, aos 15 anos. Eu não queria bater de frente se alguém me impedisse. O cabelo dela, metade raspado, é também polêmica.

– Descobri que não posso raspar meus cabelos de novo. Eu aceito, pois quero continuar dançando. Só que é isso que eu acho besta – disse.

O machismo, presente em detalhes, incomoda. Formada em Arquitetura, Carolina lembra de uma reunião para decidir como seriam feitos os carros de uma apresentação. Só os homens foram convidados.

– Dei o palpite de que daria para fazer de PVC. Aí, eles me olharam assustados, como se fosse uma grande descoberta. Quem sabe no dia que tiver um almoço vão me chamar na cozinha para ver como faz o arroz e eu não tenho ideia de como fazer, mas sei montar a droga do carrinho – brinca Carolina.

Ela lembra que aquele não é lugar para contestação, mas defende que deveria ser:

– Daqui a pouco todos vão morrer e os novos vão ficar aí. Vai minguando até que acaba.

Na próxima coluna vamos trazer a uma partedessa matéria, da qual precisamos refletir e muito sobre este tema, pois nossos dirigentes precisam rever seus conceitos ou continuar com os atuais, pois nosso tradicionalismo e a juventude requer uma definição imediata, o que pode redefinir o futuro de nosso movimento.

“Sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra”.

Sobre Leandro Chaves

Leandro Chaves
Professor e Tradicionalista. Filho de Italmir Maldonado Chaves (in memoriam) e Ana Maria Castro Chaves. Exerceu diversas funções em Entidades Tradicionalistas de São Gabriel; foi Sota-Capataz e Tesoureiro da 18ª Região Tradicionalista. Atualmente integra o Departamento Social do CTG Tarumã. É o idealizador do Mennatchê, um evento tradicionalista realizado no mês de Setembro, dentro de uma Escola Pública, que tem como objetivo cultuar as tradições do RS.

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