terça-feira, 18 setembro 2018
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Conflito de Gerações no Movimento Tradicionalista

Buenas. Aqui estamos mais uma vez para lhe pedir licença, com a proteção de nosso Patrão Celestial, para juntos prosearmos sobre a nossa tradição gaúcha.

Nesta semana e nas próximas estaremos trazendo uma matéria que foi publicada em ZH no dia 30 de agosto de 2014, pela repórter Kamila Almeida, onde fez uma belíssima reportagem sobre o tema: Jovens tradicionalistas questionam regras para manter viva a cultura gaúcha “Uma geração que se debate para encontrar seu lugar em CTGs está colocando o tradicionalismo diante de uma encruzilhada”.

Criados em um Rio Grande do Sul urbano, moderno e plural, jovens tradicionalistas querem participar do movimento, mas sentem-se sufocados por um apego a valores e normas inflexíveis nos quais já não enxergam sentido. Confrontada com essa geração, a patronagem do gauchismo vê-se diante do dilema de manter as regras intocadas, em nome do culto ao passado, ou abrir a porteira para a renovação, garantindo que o tradicionalismo tenha um futuro.

Esse mal-estar fez uma de suas aparições mais notáveis em maio (2014), quando Jean Diniz, 25 anos, praticante da chula desde a infância e jurado das principais provas da modalidade no Estado, remeteu uma carta à cúpula do MTG para cobrar um posicionamento em relação à juventude. Em 26 páginas, fez um desabafo e apresentou 29 questões, abordando temas como o espaço para o pensamento livre e para a diversidade sexual dentro do tradicionalismo. E não obteve resposta convincente, na visão dele.

Ao longo de um mês, ZH conversou com Diniz e com outros 40 jovens tradicionalistas, no Interior e na Capital, para entender como eles estão se relacionando com o movimento. São guris e gurias que se acostumaram a ver o tradicionalismo aparecer no noticiário envolvido em polêmicas, quase sempre por erguer uma barricada entre os CTGs e os valores, ideais e gostos contemporâneos. Praticamente todos esses jovens revelaram forte descontentamento com a rigidez de regras para fazer parte dos CTGs e também insatisfação com a impossibilidade de debater temas da atualidade.

O movimento é dividido informalmente em três eixos: artístico e cultural, campeiro e musical. Eles são atrativos para muitos jovens – mas o pacote integral do tradicionalismo nem tanto. Por isso, reúnem hoje uma gurizada que participa do que quer e ignora o que não quer, pela via da distância e do silêncio.

– Muitos grupos criam dançarinos, mas não tradicionalistas. Não têm o tradicionalismo na essência – afirma Diego Müller, 32 anos, instrutor de dança e compositor de música gauchesca.

Ironicamente, o mesmo movimento tradicionalista que hoje não encontra lugar para a juventude foi criado por um grupo de jovens. Entre eles estava João Carlos Paixão Côrtes, um dos responsáveis pela carta de princípios que serve de bíblia para as entidades. Para o fundador, os CTGs são clubes com regras próprias. O tradicionalismo seria outra coisa, que faz parte da cultura de cada um. Paixão Côrtes lembra que o movimento que ajudou a criar engloba hoje 4 mil entidades tradicionalistas espalhadas pelo mundo. Alerta que serão os jovens de hoje que administrarão essa herança. O que eles entenderem por tradição pode moldar o movimento.

– Tradição não se compra e não se vende, se sente – diz Paixão Côrtes.

ManoelitoSavaris, presidente do MTG na época, discorda do afastamento dos jovens. Diz que somam 400 mil, metade do público dos CTGs, e que são eles os primeiros a exigirem as regras.

ENTRE AS NORMAS RÍGIDAS E A NECESSIDADE DE ATRAIR OS JOVENS 

São as atividades artísticas as que mais têm atraído os jovens para o CTG, com dezenas de apresentações de invernadas em concursos de dança. Neste meio, há muitos homossexuais.

Entre eles, um jovem de 26 anos que entrou para o CTG aos quatro. Animado em levantar a bandeira da diversidade no tradicionalismo, aceitou dar entrevista e ser fotografado. Contou que todos sabiam da sua opção no grupo e acreditou que não houvesse impeditivo quanto à exposição. Precisava, entretanto, da autorização da patronagem. Trinta minutos antes do início do ensaio, na noite de uma quarta- feira de julho, a reportagem chegou ao local. Sem trocar qualquer palavra, a mulher do patrão defendeu-se:

– Nós não temos nada a declarar sobre este assunto. O que ele faz fora daqui é problema dele.

O dançarino recuou. Pediu para ter o nome preservado e implorou para que não fosse divulgado o nome do CTG.

– Estamos ensaiando para o Enart (Encontro de Artes e Tradição Gaúcha) e já tiraram pontos do nosso CTG por vários motivos, muito mais simples do que este. Não quero prejudicar o grupo. Poderia soar como uma afronta ao MTG – desculpou-se o rapaz.

O episódio fez com que ZH fosse convidada a se retirar do ambiente. Este é um tema espinhoso e inevitável em uma geração com plena liberdade de escolha. A história do rapaz é um exemplo. Aos 19 anos, descobriu que preferia meninos a meninas, sexualidade que aflorou dentro do grupo de dança, atiçando a ira do instrutor.

– Ele implicou com o meu jeito. Disse que eu não dançaria no próximo rodeio. Ele não me falou o motivo da expulsão. Só disse: “A porta da rua é a serventia da casa” – lembra o rapaz.

O historiador Tau Golin crê que o autoritarismo e as regras dificilmente serão mudadas, mas que não se pode desprezar a força da vida.

– Eles tiram brinco para entrar no galpão, ajeitam o cabelo como quer o regulamento, mas quando se abrem para o mundo, vão para a faculdade, chega o conflito de identidade. É difícil para um jovem defender como herói um senhor de escravo e achar que o latifúndio é o ambiente dele – argumenta.

O pesquisador alerta que instigar valores arcaicos pode fazer com que o jovem perca o referencial de sensibilidade para compreender o mundo:

– Este sujeito prega a violação do outro no campo afetivo, no comportamento social, nas roupas que veste, no estilo físico. E, de repente, o próprio filho dele é isso. É uma cultura que contribui para a xenofobia. São os próprios pais preparando um rodeio para o sacrifício dos filhos.

Na próxima coluna vamos seguir trazendo essa matéria, da qual precisamos refletir e muito sobre este tema, pois nossos dirigentes precisam rever seus conceitos ou continuar com os atuais, pois nosso tradicionalismo e a juventude requer uma definição imediata, o que pode redefinir o futuro de nosso movimento.

“Sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra”.

Sobre Leandro Chaves

Leandro Chaves
Professor e Tradicionalista. Filho de Italmir Maldonado Chaves (in memoriam) e Ana Maria Castro Chaves. Exerceu diversas funções em Entidades Tradicionalistas de São Gabriel; foi Sota-Capataz e Tesoureiro da 18ª Região Tradicionalista. Atualmente integra o Departamento Social do CTG Tarumã. É o idealizador do Mennatchê, um evento tradicionalista realizado no mês de Setembro, dentro de uma Escola Pública, que tem como objetivo cultuar as tradições do RS.

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