quarta-feira, 21 novembro 2018
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Morre ícone da música nativista palmeirense

Por Pedro Niácome.

Dona Chica 

Palmeira das Missões está de luto. Faleceu nesta terça-feira (12) Francisca Rogério, a Dona Chica. A morte da palmeirense aconteceu um dia após completar 87 anos de vida. Ela estava com pneumonia, internada a cerca de 10 dias no Hospital de Caridade. O quadro se agravou no dia de ontem (11), sendo transferida para a cidade de Três de Maio, onde veio a óbito, por insuficiência respiratória.chica1

Dona Chica foi a primeira mulher a tocar pandeiro em Palmeira das Missões, e referência para muitas gerações. Na companhia do esposo e cantor nativista, Alvorino Carvalho, e posteriormente com os filhos, cantou inúmeras canções. No Carijo do ano passado, foi premiada interpretando a música ‘Nos bailes de fundo de campo’, e também foi ganhadora do Troféu Origens.

O corpo de Francisca Rogério está sendo velado na Igreja Assembleia de Deus, no bairro Westphlen.

Acompanhe a entrevista com Dona Chica para o jornal Tribuna da Produção, publicada em maio de 2015: 

Dona Chica e seu pandeiro 

Há 70 anos a menina Francisca Rogerio, 16 anos, casou-se com Alvorino Carvalho, 35. Desta união nasceu uma parceria para a vida e para a música tradicionalista de Palmeira das Missões.

Chiquinha, como era carinhosamente chamada pela família, desde criança já ajudava seu pai nas lidas do açougue Missioneiro, que se localizava onde hoje é a agência de Correios. Sapeca desde pequena, gostava de subir nas árvores em frente ao local. “Meu pai era brabo, eu trepava nas árvores e ele me fazia descer abaixo de laço. Naquela época nem usava vestido, só bombachinha e bota”, recorda Francisca.

O casamento com Alvorino representou o início da história da Chiquinha com a música nativista. Ele na gaita e ela no pandeiro, primeiro gaiteiro e primeira pandeirista mulher que se tem notícia em Palmeira das Missões. O casal se apresentava em cidades vizinhas, como Carazinho, Condor e Panambi. Tocavam valsa, vanerão, xote, rancheira. “O Alvorino na gaita e eu no pandeiro e cantando. Animávamos festas de casamento, que começavam na sexta de tarde e iam até domingo, sem parar, sem descansar. Ou então eram as matinês, que iniciavam às seis da tarde e acabavam as duas da madrugada. A meia-noite serviam o café de panela em uma mesa grande, para todos os convidados. Eram outros tempos, as gurias e os guris ficavam em peças diferentes, e quando iam dançar, elas usavam um paninho nas mãos para não encostar no suor deles”.

Chica lembra que o casal fazia de tudo para comparecer as festas no interior. Na época viajavam de carroça, e quando era preciso, levavam os filhos em colchões na carroceria. No total foram oito filhos: Edilia Rogerio, Inácio Rogerio, Angelino Rogerio, Maria de Fátima Rogerio, Maria Helena Rogerio, Joel Rogerio de Carvalho, Alberto Rogerio de Carvalho e Jorge André Rogerio. Dos oito, somente dois foram registrados pelo pai. Os demais, registrados pela mãe, tem somente o sobrenome dela, Rogerio. “Era muito bom. Depois os filhos começaram a nascer e ficou mais difícil. Até levava alguma das crianças comigo nas viagens. Os que ainda mamavam iam junto e ficavam dormindo em um colchãozinho enquanto tocávamos. Os maiores ficavam com o meu pai. Naquela época não tinha como se prevenir, de dois em dois anos estava com um filho na barriga”.

Seguindo o exemplo dos pais, todos os filhos tem algum envolvimento com a música. Compõem, cantam ou tocam algum instrumento. Um exemplo é Angelino Rogerio, que resolveu participar do 1º Carijo da Canção Gaúcha. Escreveu uma canção em homenagem a seu pai, chamada “Avô gaiteiro”.

Além das animações de bailes, Alvorino era barbeiro e Francisca cuidava do armazém na rua Sete de Setembro. Ela conta que no bolicho tinha de tudo um pouco. E também um bar, que ficava ao lado do comércio.

No dia 22 de maio de 1986, dia da primeira ronda do primeiro Carijo, o palmeirense Aurelio Moraes interpretou “Avô Gaiteiro”, com a aprovação do público que lotava o ginásio do Parque de Exposições. No domingo, a canção foi proclamada a grande vencedora do festival. “Foi uma noite muito emocionante, quando o Angelino ganhou o prêmio, disse ao público que havia feito a música em homenagem ao pai, e que ele estava presente no salão. Começaram a empurrar o Alvorino para o palco, porque estava muito cheio, e ele numa tremedeira, ficou bem faceiro.”

O marido faleceu há 20 anos, mas Dona Chica continuou fazendo sua história, tocando seu pandeiro e animando as festas de familiares. Hoje, aos 86 anos, tem 14 netos e 4 bisnetos, e reside com a filha na rua Alvorino Carvalho, nome dado em homenagem ao companheiro. Comprovando que é uma mulher a frente do seu tempo, em 2007 se formou no ensino médio na Escola Venina de Palma, e só não cursou pedagogia devido a um pedido dos filhos.

Este exemplo de vida foi reconhecido no 30º Carijo da Canção Gaúcha. O filho Angelino, em parceria com Luis Gustavo Foresti Ribas, compôs mais uma música em reconhecimento à família, desta vez um tributo à mãe. A canção “Nos bailes de fundo de campo” se apresentou na Fase Local do Carijo, na quarta-feira (27), e contou com uma participação mais que especial: dona Chica.  Tocando pandeiro e cantando, ela acompanhou os filhos Jorge, Alberto e Angelino em mais uma parceria que emocionou ao público presente. E para coroar com chave de ouro, a composição se classificou para a finalíssima de domingo e já garantiu seu lugar no CD do 30º Carijo.

Camila Scherer/TP

Fotos: Arquivo Tribuna da Produção

Fonte: Tribuna da Produção.

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