terça-feira, 23 outubro 2018
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O lenço

Uma das peças da indumentária que mais identifica o gaúcho, o lenço vem acompanhando a história rio – grandense desde a sua colonização.

Inicialmente, as tribos indígenas existentes, entre elas os Yarós, Minuanos e Charruas, usavam uma fita feita de couro de pequenos animais ou de cipó ou ainda da casca de árvores como a imbira, para prender seus cabelos, pois usavam os mesmos em grande comprimento como era de costume entre eles.

Com a fundação das missões pelos padres Jesuítas, foram então introduzidos os tecidos, pois até então os índios fabricavam suas roupas e outros objetos de couro de animais. Os tecidos eram utilizados para a confecção de roupas que passaram a usar conforme severa moral jesuíta, entre elas a camisa, calções europeus, o tipoy (vestido usado pelas índias), o chiripá (usado pelos índios), e com isso sobravam algumas tiras que tinham como serventia para prender suas cabeleiras com a finalidade de afastar os cabelos da região dos olhos, para que os mesmo não atrapalhassem nas caçadas, disputas esportivas e também nas batalhas de guerra. Alguns ainda usavam os cabelos puxados para trás, rente a cabeça a moda “cola de cavalo”, amarrado por um pedaço de tecido. Mais tarde, os platinos usavam também tal faixa na cabeça, denominada de “vincha”.

Com a evolução dos tempos, iniciou – se o modismo de cortar os cabelos, por isso não havia mais a necessidade de usar a faixa nos cabelos.

A colonização européia trouxe consigo roupas mais requintadas como botas, ceroulas, algumas espécies de gravatas, casacos e outros.

O lenço de pescoço pode ter surgido da evolução do lenço – gravata usado pelos europeus, ou ainda, por não ter mais utilidade na cabeça e desceu para o pescoço, ainda com as pontas para trás. Sua maior afirmação ocorreu quando foi adotado politicamente como designativo de cor partidária até o modo de atá-lo ao pescoço, surgindo assim o lenço gaúcho, atado ao pescoço, solto ao peito. Passou a ser instrumento de identificação; companheiros ou inimigos eram reconhecidos a distância pela cor dos lenços.

Os farrapos que lutaram contra o Império do Brasil e até fundaram uma república (1835-1845), usavam o lenço vermelho, atado de maneira própria como símbolo de seu grupo. Como não se contentaram com tal lenços, mandaram imprimir alguns lenços nos Estado Unidos da América, por intermédio de um negociante de Montevidéu. Os primeiros que chegaram pela cidade de Rio Grande, e foram queimados na alfândega com os próprios caixotes. Os que vieram por terra, chegaram em Piratinim, no acampamento volante em terras de Manuel Moura, da maneira como saíram da confecção. Eram lenços de seda, estampados no centro com emblemas e legendas, celebrando os feitos e ficaram conhecidos como “lenços farroupilhas”, dos quais existem alguns exemplares hoje em museus.

Nas revoluções de 1893 e 1923, enfrentaram-se os lenços brancos (republicanos ou ainda chamados também de “chimangos”) e os vermelhos colorados (conhecidos também como federalistas ou “maragatos”), sendo conhecidos até os dias de hoje por serem os mais tradicionais. Os gaúchos desde 1948, com as primeiras movimentações em prol ao tradicionalismo e fundação do primeiro centro de tradições gaúchas, usam os lenços de tradição das suas famílias, embora sem os rancores políticos do passado.

Nos campos, nas lidas do dia-a-dia, usa-se o lenço por dentro da gola da camisa, para não suja-lá em dias de poeira, e também para limpar o suor de se rosto.

Atualmente, além das cores tradicionais, temos os lenços enxadrezados conhecidos também por “carijós” encontram-se nas cores vermelho e branco, e eram usado nas revoluções como inserção político – partidário na época; azul com branco e marrom com branco. O lenço de cor verde foi usado pelos republicanos, significando a cor do positivismo, doutrina política do Partido Republicano Rio Grandense. O lenço preto significa o luto, uma vez que, durante as revoluções, os soldados ou “caudilhos” não podiam deixar de guerrear pela morte de um parente ou ente querido, por isso, atava um lenço preto em seu pescoço e seguia cumprir sua sina. Muitos por desconhecerem seu significado usam lenços pretos em rodeios e fandangos, sem ao menos se importarem em conhecer se seu uso é permitido ou não. Por isso, nenhum tradicionalista verdadeiro vai de lenço preto a um baile, pois quem iria dançar de luto?

São usados também alguns lenços de “petit – pois” , ou ainda com estampas maiores devido a influencia dos gaúchos Argentinos e Uruguaios, e muito também vem do modismo. Outras cores aqui são lembradas entre elas azul-escuro, azul-claro, preto-branco (para meio luto), bege, amarelo, marrom, verde-claro, multicor e bicolor.

O lenço tem uma grande importância durante a celebração da Missa Crioula. Quando se inicia, amarra-se um lenço colorado e um lenço branco na cruz sagrada, simbolizando com isso a paz eterna entre os gaúchos, para que nunca mais se derrame sangue de outro irmão gaúcho.

Por ser feito de seda, um tecido nobre, é uma eficiente arma de defesa durante as peleias de arma de corte, facas ou punhais, pois a seda neutraliza o fio da arma.

Muitos ainda usam o lenço na cabeça em estilo “pirata”, para proteger o chapéu do suor, ou em dias de muito sol, molha-se o lenço e enrola-se na cabeça ou até no pescoço para refrescar um pouco. Alguns esquiladores usam o lenço de bolso para que os cabelos não estorvem durante a tosquia.

Existem muitas formas de se atar um lenço, ou simplesmente, dar um nó, mas não é tão simples quanto parece. O “Simples” ou “Chimango” pode ser dado em lenços nas cores azul-claro, azul-escuro, verde, amarelo, branco, preto, preto-branco, verde-claro, bege, marrom, vermelho-branco, bicolor e multicor. Quanto ao “Quatro Cantos”, “Rapadura” ou ainda “Maragato”, aceita-se este nó em lenços encarnado, colorado, preto e preto-branco. Já o nó conhecido por “Saco de Touro”, “Três Galhos”, “Amizade”, também chamado de “Nó Farroupilha” é usado em lenços de cores, encarnado, vermelho, colorado, verde, preto e preto-branco. O “Crucifixo” ficou assim conhecido por que ao modo de usá-lo parece o peão estar com um crucifixo no pescoço, muito usado em missas e festas religiosas não havendo restrições quanto a cor de lenço para seu uso. O “Pachola” possui duas posições, destro e canhoto, identificando assim o peão que o usa. Pode ser usado em lenços de todas as cores, exceto em preto e preto-branco. O nó denominado “Papagaio”, “Soledade” ou ainda “Triangular”, é considerado um dos mais belos nós, não havendo restrições quanto a cor do lenço em que vai ser usado. O nó denominado “Namorado” possui três posições na medida em que os nós são afastados sendo elas: apaixonado, se o nó estiver apertado; querendão, se houver espaço entre os nós; e livre se o espaço se alargar. Pode ser usado em lenços de todas as cores. E o mais conhecido, o “Curioso”, como o próprio nome já diz tudo, é um nó utilizado para pegar curiosos na campanha.

Nos tempos atuais, o lenço é considerado peça obrigatória na indumentária, sendo que para muitos não possui ter a importância como no passado.

O lenço esvoaçado ao vento, no peito de um nobre gaúcho, é o resultado da altivez, da valentia e da conquista do nosso chão, e da coragem de muitos que lutaram por esse ideal.

O lenço é a herança que trazermos e cultuamos como lembrança dos nosso ancestrais.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FAGUNDES, Antônio Augusto, Indumentária Gaúcha, Martins Livreiro Editor, 2ª Edição,

Porto Alegre, Rio Grande do Sul,1985.

FAGUNDES, Antônio Augusto, Curso de Tradicionalismo Gaúcho, Martins Livreiro

Editor, 2ª Edição, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, 1995.

LAMBERTY, Salvador Fernando, A B C do Tradicionalismo Gaúcho, Martins Livreiro

Editor, 5ª Edição, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, 1996.

MEYER, Augusto, Guia do Folclore Gaúcho Coleção Brasileira de Ouro, Editora Tecnoprint Grupo Coquetel, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1995.

PÀGINA DO GAÚCHO, endereço eletrônico, www.paginadogaucho.com.br

Fonte: Chasque do Conhaque.

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