terça-feira, 21 agosto 2018
Capa » PROSEANDO » Semana Farroupilha

Semana Farroupilha

Semana Farroupilha

Gaúchos e Gaúchas deste Rio Grande de Deus, estamos mais uma vez lhe pedindo licença para prosearmos aqui no mundotradicionalista.com.br onde a cada encontro semanal tentamos contribuir para aumentar a vivência de cada um de vocês sobre a nossa Tradição Gaúcha. Essa cultura que está espalhada pelos mais distantes pagos deste Mundo Grande de Deus.

Neste primeiro encontro semanal, neste mês farroupilha, o nosso Setembro, vamos trazer aqui no PROSEANDO COM RATINHO CHAVES, um pouco da “Origem da nossa Semana Farroupilha”, bem como abordaremos também algo sobre o “Fogo de chão”, “Tertúlia”,Missa Crioula”, falaremos também sobre os “Maragatos, Pica-paus e Ximangos” e encerrando nossa coluna sobre o significado de “Tchê” e “Xirú”.

Desde já agradecemos a todos por essa prosa e colocamo-nos a disposição para juntos estarmos cultuando o que de melhor existe em nosso Rio Grande do Sul.

topo_sf

A origem da Semana Farroupilha

Tudo começou quando em 1947, o jovem estudante do Colégio Estadual Júlio de Castilhos, de Porto Alegre, João Carlos D’Ávila Paixão Côrtes foi a um bar tomar um cafezinho e avistou uma bandeira do Rio Grande do Sul servindo de cortina numa janela, o que lhe causou muita indignação. Isso era um reflexo causado pelo modismo americano que os jovens dos países ocidentais buscavam copiar e pela ditadura Vargas que havia proibido manifestações e práticas regionais.

Assim, Paixão Côrtes e mais outros sete estudantes daquele colégio resolveram criar um Departamento de Tradições Gaúchas com a finalidade de preservar, desenvolver e revitalizar as tradições gaúchas que estavam esquecidas. Entusiasmados com a ideia, procuram o Major Darcy Vignolli, responsável pela organização das festividades da “Semana da Pátria” e expressam o desejo do grupo de se associarem aos festejos, propondo a retirada de uma centelha do Fogo Simbólico da Pátria para transformá-la em “Chama Crioula” como símbolo da união indissolúvel do Rio Grande à Pátria Mãe para que a mesma aquecesse o coração de todos os gaúchos e brasileiros até o dia 20 de setembro, data magna estadual.

Naquela ocasião, o major Vignolli convidou Paixão Côrtes para montar uma guarda de gaúchos pilchados em honra ao herói farrapo David Canabarro, que seria transladado de Santana do Livramento para Porto Alegre.

Paixão Côrtes reuniu então oito gaúchos bem pilchados, e no dia 5 de setembro de 1947 prestaram a homenagem a Canabarro. Esse piquete é hoje conhecido como o Grupo dos Oito ou Piquete da Tradição, sendo formado por: Antônio João de Sá Siqueira, Fernando Machado Vieira, João Machado Vieira, Cilço Araújo Campos, Ciro Dias da Costa, Orlando Jorge Degrazzia, Cyro Dutra Ferreira e João Carlos Paixão Côrtes, que conduziram as bandeiras do Brasil, do Rio Grande do Sul e do Colégio Estadual Júlio de Castilhos. No dia 7 de setembro de 1947, à meia noite e antes de extinguir o “Fogo Simbólico da Pátria” que queimava na pira, Paixão Côrtes, Fernando Machado Vieira e Cyro Dutra Ferreira, retiraram a centelha que originou a primeira “Chama Crioula” que ardeu em um candeeiro crioulo até a meia noite do dia 20 de setembro, quando foi extinta no primeiro baile gaúcho por eles organizado no Teresópolis Tênis Clube.

Unidos pela força de amor a terra e pelo poder do fogo, os gaúchos decidiram manter acessa essa chama ano após ano.

“Não estávamos, nós os jovens, nos insurgindo contra as coisas do desenvolvimento, da liberdade, do progresso e nem éramos insensíveis à evolução. Mas queríamos também o direito de fixar as nossas coisas, de preservá-las, de valorizá-las dignamente nos seus devidos lugares”. – Paixão Cortes.

Fogo de chão e Tertúlia

As longas e frias noites de inverno nas tribos indígenas do sul brasileiro levaram os nativos a se reunir ao redor de um fogo de chão, onde os homens contavam às crianças suas aventuras do dia-a-dia e as mulheres falavam de suas façanhas nos momentos solitários enquanto os homens caçavam ou guerreavam. Surgia dessa forma a tertúlia e o núcleo do folclore gaúcho. Com a tradição do fogo de chão surgiram nas fazendas os galpões crioulos, cobertos de capim, barreados, de pau-a-pique e chão batido, tendo ao centro um fogo de chão sempre acesso para aquecer a chaleira do chimarrão e assar um churrasco. Nesse ambiente simples e rude a gauchada ainda se reúne para uma charla (conversa), saciar a fome, ou ainda para diversão com cantos, declamações, relatos de “causos” e jogos. Desta forma, o galpão transformou-se numa instituição democrática onde convivem peões e patrões que, ao redor de um fogo de chão, trocam ideias, sem solenidades ou formalismos. É por isso que em muitos Centros de Tradições Gaúchas o fogo de chão é destacado como se fosse um “altar” da tradição e do folclore gaúcho e não um mero lugar onde, de vez em quando, é feito um assado.

A Missa Crioula

A palavra crioulo era usada na época do império para designar o filho do escravo que nascia nas colônias europeias e após a escravidão foi empregada de forma pejorativa para pessoas da raça negra. Em meados do século XX, com o surgimento do Movimento Tradicionalista Gaúcho, a palavra crioulo tornou-se um adjetivo para qualquer produto que utilize matéria prima genuinamente gaúcha.

Desde o Concílio Vaticano II (1965) a Igreja adaptou a Missa Latina para a língua vernácula própria de cada região. Em 1967, os padres gaúchos Paulo Murab Aripe e Amadeu Gomes Canellas solicitaram uma autorização ao arcebispo de Porto Alegre, Dom Vicente Scherer, para se rezar a Missa Crioula, que é uma adaptação da missa católica em linguagem, rima, estilo e símbolos tradicionalistas. A autorização foi apreciada,aprovada e concedida, na época, pelo episcopado gaúcho, para celebrá-la em ocasiões extraordinárias. Desde então, tornou-se comum entre os Centros de Tradições Gaúchas durante as comemorações da Semana Farroupilha. Portanto, a Missa Crioula é uma missa católica, do rito latino, mas com cantos, preces, orações próprias em estilo campeiro. A rima é bastante acentuada na linguagem e oração litúrgica Jesus Cristo é chamado de Divino Tropeiro, Nossa Senhora, de Primeira Prenda do Céu, Deus é chamado de Pai ou Patrão Celeste ou Santo, são alguns exemplos desse linguajar campeiro.

Maragato, Pica-Pau e Ximango

Como surgiram e o que significam?

Ao contrário do que muitos imaginam, esses termos não surgiram durante a Revolução Farroupilha (1835-1845), mas sim durante as Revoluções Federalistas ocorridas no sul do país após a proclamação da república.

Na primeira revolução (1893-1895) entre os partidários federalistas (maragatos), liderados por Gaspar Silveira Martins e os republicanos (pica-paus) seguidores de Júlio Prates de Castilhos, presidente do Estado do Rio Grande do Sul, surgiram os termos maragato e pica-pau. O termo maragato foi à alcunha pejorativa atribuída pelos legalistas aos revoltosos federalistas, liderados por Gaspar da Silveira Martins, que deixaram o exílio no Uruguai e entraram no Rio Grande do Sul à frente de um exército. Como o exílio havia ocorrido em uma região do Uruguai colonizada por pessoas originárias da Maragateria (Espanha) que tinham hábitos semelhantes aos dos ciganos, os republicanos então, buscando caracterizar uma identidade estrangeira e mercenária aos federalistas, os apelidaram de maragatos. O lenço vermelho os identificava.

O termo pica-pau foi uma alcunha aplicada pelos federalistas aos republicanos que apoiavam o governo central e teria surgido em função das listras brancas do topete do pássaro, pois os governistas usavam chapéus com divisas brancas, que lembravam o topete do pica-pau e lenço de cor verde ao pescoço.

Já o termo ximango surgiu no século XX. O ximango é uma ave de rapina, falconídea, semelhante ao carcará. Esse cognome, também depreciativo, foi dado pelos federalistas, liderados por Joaquim Francisco de Assis Brasil ao governistas do Partido Republicano Rio-grandense (PRR) na Revolução de 1923. O lenço de cor branca identificava os seguidores republicanos liderados por Antônio Augusto Borges de Medeiros.

Devido às essas e outras revoluções posteriores, no Rio Grande do Sul, os lenços vermelho e branco tornaram-se, respectivamente, como a representação de duas “bandeiras” ou ideais políticos, um significando a oposição ao governo e o outra a situação. No meio tradicionalista, muitos consideram essas duas cores, mais a preta do luto, como as únicas representativas da indumentária gaúcha sul-riograndense.

O que significa “Tchê” e “Xiru”

Tchê” é uma expressão gaúcha que pode ser usada como um pronome de tratamento, sendo muito utilizada para se referir a alguém pessoalmente ou para fazer uma saudação. Também significa “eu” e “meu”. Há duas versões para essa expressão, uma de origem indígena e outra de origem espanhola.

Na língua Mapuche, tribo indígena da patagônia, significa “gente”. Naquela região extrema do continente é comum lugares com o sufixo “che”, como, por exemplo: Bariloche, Tehuelche, Mapuche, entre outras.

A versão de origem espanhola tem um significado muito curioso. Há muito tempo, antes da descoberta do Brasil, o latim marcava acentuada presença nas línguas europeias como o francês, espanhol e o português. Além disso, o fervor religioso era muito grande entre a população mais simples. Por essa razão, a linguagem falada era dominada por expressões religiosas como: “vá com Deus”, “queira Deus que isso aconteça”, “juro pelo céu que estou falando a verdade” e assim por diante. Uma forma comum das pessoas se referirem a outra era usando interjeições também religiosas como: “Ô criatura de Deus, por que você fez isso”? Ou “menino do céu, onde você pensa que vai”? Muita gente especialmente no interior ainda fala desse jeito.

Os espanhóis preferiam abreviar algumas dessas interjeições e ao invés de exclamar “gente do céu”, falavam apenas Che! (se lê Tchê) que era uma abreviatura da palavra caelestis (se lê tchelestis) e significa do céu. Eles usavam essa expressão para expressar espanto, admiração, susto. Era talvez uma forma de apelar a Deus na hora do sufoco. Mas também serviam dela para chamar pessoas ou animais. Com a descoberta da América, os espanhóis trouxeram essa expressão para as colônias latino-americanas e então os gaúchos, que eram vizinhos dos argentinos e uruguaios, acabaram importando para a sua forma de falar. Portanto exclamar “Tchê” ao se referir a alguém significa considerá-lo “alguém do céu”. Que bom seria se todos nos tratássemos assim, não é mesmo?

Xiru” é uma palavra de origem indígena (Guarani) e que significa amigo, podendo também ser sinônimo de forte e corajoso.

Com a certeza de termos contribuído com os gaúchos e gaúchas para aumentar as vivências sobre nossa Tradição Gaúcha estamos encerrando mais um encontro semanal, onde agradecemos ao nosso Patrão Celestial por permitir que estivéssemos juntos por mais uma semana proseando com cada um de vocês.

Muito Obrigado gaúchos e gaúchas por este convívio simples, humilde e informativo, pois com o sangue farroupilha correndo em nossas veias, fizemos brotar em cada um de nós, principalmente no Setembro, cada vez mais, o verdadeiro amor as nossas tradições gaúchas.

Te acorda gaúcho! Teu pampa é xucro
E só trouxe honra para o nosso País.

Pois está na massa desse nosso sangue
a mesma gana a mesma galhardia
de quando a raça pariu o Rio Grande
e acendeu o pampa em seu primeiro dia.

Por isso engano desses malacara
Nossa identidade se funde em anseios
Por que o guasca que já nasceu cepa
Não apodrece com o tempo feio

Porque o gaúcho nasce e morre guapo
E renasce xucro pra taurear rodeio
Dizem que os caudilhos não existem mais
Pois é puro engano desses malacaras.

Xiru Missioneiro, Adalberto Machado e João Ribeiro

Sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra”.

Sobre Leandro Chaves

Leandro Chaves
Professor e Tradicionalista. Filho de Italmir Maldonado Chaves (in memoriam) e Ana Maria Castro Chaves. Exerceu diversas funções em Entidades Tradicionalistas de São Gabriel; foi Sota-Capataz e Tesoureiro da 18ª Região Tradicionalista. Atualmente integra o Departamento Social do CTG Tarumã. É o idealizador do Mennatchê, um evento tradicionalista realizado no mês de Setembro, dentro de uma Escola Pública, que tem como objetivo cultuar as tradições do RS.

BOMBEIA TAMBÉM, TCHÊ!

Caçapavano ganha reconhecimento do MTG por atividades tradicionalistas

Na última sexta-feira (01/12) o Caçapavano Lucas Mota recebeu uma homenagem em reconhecimento aos serviços ...